Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

14 janeiro 2017

As Altas Montanhas de Portugal





Estava muito curiosa em relação a este livro (que li na versão alemã Die hohen Berge Portugals) por duas razões. Em primeiro lugar, foi escrito por Yann Martel, o autor do fantástico A Vida de Pi, vencedor do Man Booker Prize 2002 e que deu origem a um filme. Em segundo lugar, interessa-me sempre ler sobre o nosso país, quando descrito por alguém de fora, acho que temos imenso a ganhar com a mudança de perspetiva.

Custa-me muito dizer que o livro me desiludiu. O enredo podia acontecer num outro país qualquer, não necessariamente Portugal, perdendo-se o encanto de nos vermos com olhos estrangeiros. Além disso, ao descrever a paisagem do nordeste transmontano, Yann Martel diz que em Portugal não existem montanhas a sério, apenas colinas pintadas de verde!
Colinas pintadas de verde, na terra de Torga?

O romance está dividido em três partes. Na primeira, passada em 1904, o jovem Tomás, a fim de superar o desgosto causado pela morte da namorada e do filho pequeno, pega no carro do tio rico e parte para as altas montanhas de Portugal, à procura de um crucifixo esquecido, mas que ele desconfia ser grande obra de arte. Depois de ler o diário de um Padre Ulisses, missionário em África no século XVII, Tomás chega à conclusão de que o crucifixo se encontra na igreja de alguma aldeia do distrito de Bragança.

O ponto de partida é aliciante, mas é confrangedor constatar que Yann Martel pouco sabe sobre o nosso país. Para começar, temos uma volta pela cidade de Lisboa com o tio de Tomás, que pretende ensinar o sobrinho a guiar (naquela altura, ainda não havia carta de condução). Yann Martel nomeia ruas, descrevendo um percurso que eu, com poucos conhecimentos de Lisboa, não posso avaliar, mas sei que ele comete um grande erro ao situar a estátua do Marquês de Pombal na Praça do Comércio!

Tomás inicia a sua viagem e o autor prova ter pesquisado, apresentando nomes de localidades: Póvoa de Santa Iria, Alverca do Ribatejo, Alhandra, Porto Alto (apesar de sabermos que o eixo Lisboa-Santarém-Coimbra-Porto se usa desde a era romana, pelo que deduzo que houvesse, já em 1904, alguma espécie de estrada, ou caminho, Tomás embrenha-se pelo interior do país), Ponte de Sor, Rosmaninhal, Atalaia, etc. Os habitantes das localidades por onde passa maldizem a máquina barulhenta, alguns tornam-se mesmo violentos. Além disso, Tomás vê-se aflito para guiar (vai aprendendo à medida que avança) e para arranjar o combustível nafta, que encontra nas farmácias, mas em quantidades pequenas (ainda não há bombas de gasolina). O leitor segue divertido estas peripécias. O problema é que o cenário podia ser outro qualquer! Como já referi, não há nada que se possa definir como exclusivamente português, além do nome das terras.

Tomás chega a Castelo Branco e aí a narrativa torna-se desastrosa, pois, num ápice, o jovem alcança Macedo de Cavaleiros, como se estas duas cidades ficassem ao lado uma da outra! Chegado a Trás-os-Montes, admira-se por as montanhas não serem tão altas assim. Não passam de colinas verdes! O jovem, que nunca tinha saído de Lisboa, chega à conclusão de que em Portugal não há montanhas altas, o que se torna ainda mais ridículo, se pensarmos que ele, para ir de Castelo Branco a Macedo de Cavaleiros, teria forçosamente de passar pela Serra da Estrela!

A segunda parte do romance passa-se em 1939, em Bragança, um episódio surreal à volta de um médico legista, a quem surge uma senhora a pedir que autopsie o cadáver do marido (já haveria médico legista, nesta altura, em Bragança?). A senhora é oriunda de uma aldeia daquele distrito, da qual o médico legista nunca ouviu falar! A sério? No único hospital da região? Quando ele pergunta onde fica a aldeia, ela responde: «nas altas montanhas de Portugal», admirando o médico, que diz já ter ouvido falar desse sítio - como se Bragança não fizesse parte desse cenário!

Na terceira parte, início dos anos 1980, tomamos conhecimento com um senador canadiano à beira da reforma, descendente de portugueses. Depois de enviuvar e desiludido com a vida, resolve regressar à terra de origem da sua família, uma aldeia perdida… «nas altas montanhas de Portugal». Faz-se acompanhar por um chimpanzé, que salva de um laboratório de experiências. Uma atitude nobre, não há dúvida, mas convenhamos: o homem, sem saber uma palavra de Português, instala-se numa aldeia perdida nos montes transmontanos, acompanhado de um chimpanzé e toda a gente acha imensa piada? Os habitantes são caracterizados como hospitaleiros, mas eu sinceramente não consigo imaginar que gente dessa se dê bem com um chimpanzé andando livre pelas ruas da sua aldeia! Um chimpanzé que pertence a um estrangeiro que eles nunca viram mais gordo e ninguém sabe que os pais dele eram oriundos da sua terra. Os aldeãos transmontanos são hospitaleiros, sim, mas tudo o que fuja à ordem que eles conhecem é olhado com desconfiança. Sei isso por experiência própria. Além disso, a paisagem é caracterizada com as tais colinas verdes, cobertas de pinhais, onde surgem, de repente, grandes rochas. Pode ser muito bonito, mas não é o nordeste transmontano! 

Yann Martel corre o risco de se perder nas imagens e simbologias que constrói na sua cabeça, tornando-se muito difícil compreender onde quer chegar. Será que é sua ambição escrever apenas para ele próprio? Os temas centrais deste romance são a fé religiosa, a maneira como cada pessoa reage à perda e o questionar sobre o sentido da vida (que implica uma reaproximação aos outros animais). Na minha opinião, porém, o autor foi longe demais em certos momentos surrealistas. Além disso, não considero bem sucedida, neste caso, a mistura entre fantasia e realidade. Numa entrevista de Yann Martel à revista alemã Bücher Magazin, ele diz que as montanhas aqui descritas são produto da sua fantasia, que tal lugar não existe em Portugal. Valha-nos isso! Mas será legítimo usar o nosso país tão abusivamente, não dizendo nada de jeito sobre ele, dando informações falsas? As pessoas que não conhecem Portugal (e Yann Martel tem leitores em todo o mundo e em todas as línguas) não sabem fazer essa distinção. E, se é fantasia, porque se deu o autor ao trabalho de pesquisar tantos nomes?

11 janeiro 2017

Tu És a Única Pessoa (13)

«Estava-se no Verão de 1976. Mário Soares acabara de tomar posse como Primeiro-Ministro, depois de ganhar as primeiras eleições legislativas. Um conhecido de Leonel tornara-se Secretário de Estado do governo minoritário do PS e, sabendo que ele acabara de se formar, ofereceu-lhe um lugar de assessor.
Leonel não pensara em seguir a carreira política. Se o fizesse, aliás, via-se mais nas fileiras de um partido como a UDP, já que o partido que se formara a partir das Brigadas Revolucionárias se tinha ficado por uma votação irrisória.
(...)
Na verdade, também a integração do amigo no governo PS o surpreendia, um amigo que igualmente andara metido em organizações marxistas-leninistas. O Secretário de Estado cozido de fresco lembrou-lhe, porém, que os tempos revolucionários já tinham passado à História. O futuro estava com Mário Soares e os Socialistas, seria essa a esquerda portuguesa! O PCP jamais alcançaria votação suficiente para ser alternativa de governo, para já não falar da UDP e quejandos.
- Leonelzinho, isto, daqui prá frente, vai ser assim: ou o PS, ou a direita!»





09 janeiro 2017

Tu És a Única Pessoa (12)

E porque vem a propósito:


"- Eu estive lá!
- Onde?
- Em Londres.
- Na manifestação? Contra o Presidente do Conselho?
Fora medonho! Marcelo Caetano havia sido recebido com gritos, vaias, assobios e apupos em Português e em Inglês. Os jovens britânicos tinham-se juntado a portugueses residentes em Londres, mas também outros, vindos principalmente de França e da Bélgica.
- E alguns de Portugal, como eu - concluiu, com um sorriso satisfeito. - Até conheci o Mário Soares!
- Conheceste quem?
Leonel sorria cada vez mais, satisfeito no seu papel de esclarecedor. E Helena deliciava-se com aquela intimidade, a falarem baixo, muito chegados.
Mário Soares era um advogado no exílio, secretário-geral do Partido Socialista Português, recentemente criado na Alemanha. Reunira-se, depois, em França, com os dirigentes comunistas portugueses, considerando urgente a liquidação da «ditadura fascista»."








06 janeiro 2017

Quando queremos um filho à nossa imagem




Sou grande admiradora de Cristiano Ronaldo. Apesar de, muitas vezes, se pensar que o carácter dele deixa algo a desejar, ou de se ter chegado a um ponto em que não se consegue distinguir o que é autêntico, ou mero golpe de marketing, não há dúvida de que Ronaldo é a maior estrela que Portugal jamais deu ao mundo. Nem sequer vale a pena comparar com Eusébio ou Amália, por mais respeito que devamos a estas duas pessoas, que tanto fizeram pelo nosso país. Nem sequer com Camões! Cristiano Ronaldo é um símbolo planetário, conhecido nas aldeias mais remotas das regiões mais inóspitas, sejam os seus habitantes ricos ou pobres, cultos ou ignorantes.


Confesso, porém, que fiquei um pouco desiludida, ao ler um artigo baseado numa entrevista que Ronaldo deu a um canal egípcio, nomeadamente, quando fala na educação do seu filho. «Digo-lhe sempre que tem de ser forte para lidar com a adversidade». Tenho sérias dúvidas se se consegue que uma criança fique forte, ao repetir-lhe constantemente que ela tem de ser forte. As crianças esforçam-se muito para não desiludir os pais, por isso, acho contraproducente carregá-las de exigências. Corre-se o risco de as esmagar, desenvolver nelas o medo de falhar, de desiludir, o que desemboca numa grande insegurança.


Educa-se mais com exemplos do que com palavras. Se Ronaldo quer que o filho seja forte, tem, acima de tudo, de dar o exemplo, não só na sua vida pública, como na familiar. Além disso, o mais importante é que ele acompanhe o filho nos seus problemas diários, escutando-o, levando-o a sério, por mais insignificantes que as suas queixas lhe pareçam. E, mais do que repetir: «tens de ser forte», deve apoiá-lo. Fazer uma criança forte não é “largá-la aos bichos”, mas mostrar-lhe que se está do lado dela.



Mas então vai pressioná-lo, ou não? Por um lado, diz que não, por outro, diz que sim, um pouco… E porque não há de o miúdo de ser guarda-redes? Que tem Ronaldo contra guarda-redes? Não há grandes exemplos a seguir? Que dizer de Vítor Damas, Michel Preud’Homme, Gianluigi Buffon e outros fantásticos profissionais?


Os filhos não são uma segunda versão nossa, mas sim pessoas autónomas. Cristiano Ronaldo não precisa de «empurrar um pouco» para que o filho seja futebolista, sendo ele próprio um. Os filhos guiam-se pelos pais. Mas é importante que não se sintam pressionados, pois só serão verdadeiramente felizes se seguirem a sua vocação. Os pais podem dar sugestões, orientações, mas não devem nunca pressionar. Devem, sim, dar competências aos filhos para que possam decidir livremente.


O verdadeiro amor não conhece preferências. Ama-se um filho independentemente do que ele vier a ser.