Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

19 fevereiro 2018

Refugiados e Terrorismo


O facto de o mundo estar perigoso não pode ser pretexto para deixarmos de ajudar quem precisa.

O risco é grande?
É. Eu vivo num país que recebeu, nos últimos dois anos, milhão e meio de refugiados.

Há criminosos no meio deles?
Há. Mas a esmagadora maioria é gente (muitas famílias com crianças pequenas) que precisa de ajuda.

Já houve atentados?
Já.

Eu tenho medo?
Não. Somos cristãos e devemos mostrar que somos diferentes, mesmo que os outros, nos países deles, nos maltratem. Foi assim que Cristo nos ensinou!


17 fevereiro 2018

Ama Os Outros Como a Ti Mesmo


Ilustração de Inês Massano

O problema não é não sabermos amar os outros. O problema é não sabermos amarmo-nos a nós próprios!

Há pessoas que dificilmente fazem um bem a si próprias. Pelos vistos, não se acham suficientemente dignas, ou valiosas. Como consequência, pode acontecer que também não gostem de ver os outros a fazerem-se algo de bom. São incapazes de os amar, porque não se amam a si próprias.

É preciso começar connosco próprios. «Ama os outros como a ti mesmo» tem de começar por nós.


14 fevereiro 2018

Closer To You

Hoje é Quarta-Feira de Cinzas, mas também Dia dos Namorados, por isso, pensei que um pouco de música vinha mesmo a calhar, principalmente, em se tratando de uma composição que se adequa às duas situações.

O meu marido e eu pertencemos, há cerca de um ano, a um grupo coral Gospel, intitulado Lightfire. No passado mês de Novembro, demos um concerto na igreja de São Cosme, em Stade. Foi feita uma gravação áudio e, a partir dela, eu criei um videoshow para a canção Closer To You, que se pode ver no YouTube.

No original, em espanhol, Acercarme a Ti foi adaptada à língua inglesa por Joakim Arenius e acho-a adequada a este dia por, apesar de ser uma canção religiosa, expressar uma grande paixão, como é comum no Gospel:

To get closer to you
Oh Jesus, you know
That is what I, that's what I want
Because life has no meaning
If I'm alone
If I am lost in this world without you.




12 fevereiro 2018

Dentro da Noute






Esta é uma excelente coletânea de contos góticos, em forma de ebook com download gratuito no Projecto Adamastor. Particularmente interessante para mim foram os contos de catorze autores brasileiros que não conhecia, à exceção de Bernardo Guimarães, de quem já lera o romance A Escrava Isaura, também adquirido no Projecto Adamastor, e que surge aqui com A Dança dos Ossos, um dos melhores contos. Entre os brasileiros, destaco igualmente Júlia Lopes de Almeida que, em Os Porcos, nos faz, em poucas páginas, um retrato vivo da crueldade do provincianismo brasileiro, racismo incluído, assim como Demônios, de Aluísio Azevedo, que nos narra uma interessante variante do apocalipse, Assombramento - História do Sertão, de Alberto Rangel, que nos conta os medos e superstições dos homens sertanejos, e O Defunto, de Thomaz Lopes, um verdadeiro pesadelo, já que narra o suplício de um homem enterrado vivo (depois de ter sido dado como morto).

Entre os portugueses (treze, no total), e além do maravilhoso O Defunto, de Eça de Queirós (que pode ser descarregado individualmente no Projecto Adamastor), adorei A Dama Pé-de-Cabra, de Alexandre Herculano, que em muito compensou uma certa desilusão na leitura de Eurico, o Presbítero. A Dama Pé-de-Cabra é uma excelente narração medieval. Camilo Castelo Branco surge magistral, como sempre, com A Caveira.

Confesso que me desiludiram dois autores que nunca tinha lido e sobre os quais estava curiosa. O primeiro é Raul Brandão, com O Mistério da Árvore, conto cheio de lugares-comuns. Claro que isto não é pretexto para que não leia mais nada deste autor, interessa-me particularmente o romance Húmus. A outra desilusão foi Mário de Sá-Carneiro, com A Confissão de Lúcio, um conto interessante, mas disperso e que me pareceu datado, muito próprio da sociedade eufórica das primeiras décadas do século XX. Também deste tão afamado autor pretendo ler outras obras.

Entre os portugueses, há duas autoras: Ana de Castro Osório, com o excelente conto (ou novela) A Feiticeira (também incluído em Quatro Novelas, por mim já lido), e Florbela Espanca com A Morta, que, confesso, não me encantou particularmente.

Além de fazer as delícias dos amantes da literatura gótica, esta é uma boa oportunidade para ler, de uma assentada, vinte e sete escritores.


10 fevereiro 2018

Politicamente (in)correto



O conceito do politicamente correto, criado, nos anos 1980 por estudantes norte-americanos, tornou-se uma mera forma de etiquetar as pessoas. E as etiquetas só servem para dividir e acirrar ódios.

Muita gente acha que só se pode ser, ou politicamente correto, ou incorreto, ou seja, radicaliza, bem ao estilo de "quem não é por mim é contra mim". Daí ao insulto é um passo muito pequeno e o politicamente correto passou mesmo a ser um insulto para quem exprime uma opinião diferente.

Por outro lado, ao abrigo do "politicamente incorreto", muitos se julgam contestários, veem-se como corajosos que ousam ir contra a corrente, uma posição que é aproveitada para se dizerem alarvidades a torto e a direito, incluindo discursos racistas e homofóbicos. E assim se criou a ideia de que os politicamente incorretos são verdadeiros revolucionários, mesmo quando pertencem à extrema-direita!

Radicalizações são contraproducentes, pois não aproveitam o que possa haver de bom em posições opostas. Em vez de nos andarmos a etiquetar de politicamente corretos ou incorretos, devíamos pensar em aproveitar as coisas boas de ambos os lados da barricada, agindo e falando de acordo com a nossa consciência, sem pensar em politicamentes!


08 fevereiro 2018

Sobre o insulto


Insultos são palavras proferidas com o intuito de ferir, ou seja, violência verbal. Os insultos têm origem no desejo de adquirir poder, quando a nossa impotência nos incomoda. Quem insulta, aumenta a sua autoestima com tiradas carregadas de ódio; quem insulta, combate a sua impotência rebaixando os outros.

A livre expressão e o debate representam uma parte importante da democracia. Porém, por mais que os pontos de vista se diferenciem, e apesar de toda a dureza que se possa usar, há que ter em conta que não se deve humilhar o outro. Afirmações, acusações e juízos generalizados, sem provas, nem nomear fontes, constituem um baixíssimo nível de argumentação, cheio de vaidade e orgulho ferido.

Num artigo publicado na revista Visão de 15 de Setembro de 2016, sobre insultos na política, dizia-se:

«O insulto pode ser fruto da falta de autocontrolo. De uma explosão espontânea ou premeditada, quando não há outros argumentos. Segundo a psiquiatra Maria Antónia Frasquilho, antiga diretora do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa,  nunca se deve permitir que funcione como tratamento para alguém carregado de tensão. "É um destratamento", afirma. "Ao descarregar a pressão, quem insulta não resolve um problema. Está a criar outro: o abuso moral sobre a vítima".
No seu livro Stick and Stones - The Philosophy of Insults, Jerome Neu, professor numa Universidade californiana, define o insulto como a declaração ou assunção de domínio, quer reivindicando superioridade, quer revelando falta de consideração. E, escreve, ser insultado é sofrer um choque, a disrupção do nosso sentido de nós mesmos e do nosso lugar no mundo. É que quem insulta fá-lo com esse objetivo. Quer remeter o alvo ao desprezo, desvalorizá-lo, realçando os seus pontos fracos, apoucá-lo e desumanizá-lo».

Para terminar, as palavras de Ilse Junkermann, bispa alemã (luterana), por mim traduzidas:

«As pessoas movimentam-se em sistemas pensantes fechados e aceitam apenas informações dos seus "semelhantes". As vivências de uma pessoa são o seu cartão de visita. Quais teriam sido as vivências de alguém que exerce violência verbal? Podemos exprimir-nos de maneira crítica perante certas palavras ou atitudes, até julgar a pessoa em pensamentos ou palavras, mas temos sempre de respeitar a sua condição de ser humano. Esta é uma posição cristã».


03 fevereiro 2018

Em Boa Companhia!

Cerca de 20% dos portugueses vivem no estrangeiro, a emigração devia ser um tema recorrente na nossa literatura. A Oxalá Editora (editora portuguesa na Alemanha) publicará em breve uma coletânea de contos sobre emigração. E assim me vejo eu em excelente companhia:




01 fevereiro 2018

Calendário 2018 da UZ (3)

«Os cães riem. E nenhum ri como ri o outro. Quando os cães nos mostram como riem, ficamos a saber quem são».

«O sorriso do Ceilão é esperançoso. Lembra que já faltou mais para a Primavera».




https://www.facebook.com/uniaozoofila/

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27 janeiro 2018

A Vida Trágica De Uma Escritora Que Morreu em Auschwitz



Foto: dpa/AP

Else Ury, autora alemã de livros infantis da primeira metade do século XX, foi morta nas câmaras de gás de Auschwitz, um destino ignorado durante cinquenta anos no mundo literário alemão, apesar de os seus livros tornarem a conhecer grande êxito depois da 2ª Guerra Mundial. A razão? Os intelectuais alemães da literatura infanto/juvenil desdenhavam de uma escritora por eles intitulada de «propagandista do mundo de conto de fadas”.

Else Ury ficou famosa, a partir de 1913, com uma série dedicada a uma menina chamada Annemarie Braun, que vivia em Berlim no seio de uma família feliz, com o pai médico, a mãe dona de casa, dois irmãos mais velhos, uma criada, uma ama e a sua boneca. Por ser a mais nova, Annemarie Braun era apelidada de Nesthäkchen (benjamim), uma criança vivaça e traquina, que tinha muito a aprender, até se tornar numa jovem obediente e, mais tarde, numa esposa e mãe perfeita. Os episódios da série Nesthäkchen decorriam sob o esquema: «ultrapassar das regras - arrependimento - final feliz».


Entre 1913 e 1925, a série conheceu grande sucesso. Else Ury enriqueceu, mas nunca casou nem constituiu família própria, pelo que se dedicou aos pais, aos irmãos e aos sobrinhos. Dir-se-ia que a sua vida decorria perfeita, um retrato dos seus livros, até que… chegou o nazismo.

Else Ury era judia. A partir de 1933, foi proibida de escrever e de publicar. Viu os seus livros serem retirados das livrarias. Um dos seus irmãos suicidou-se em 1935, os outros familiares fugiram para o estrangeiro. Else Ury ficou em Berlim. Mais! Regressou à sua cidade-natal, depois de uma viagem que fez a Londres, em 1938! Regressou para não deixar a mãe de noventa anos sozinha. Mas terá havido igualmente um pouco de inconsciência? Acreditaria Else Ury no mundo conto de fadas que criara nos seus livros?

O certo é que a sua biografia, publicada em 2007 por Marianne Brentzel (e que finalmente revelou a vida desconhecida desta autora de sucesso) se intitula Nada de mal me acontecerá… (tradução livre de Mir kann doch nichts geschehen…). Else Ury confiaria na justiça e na humanidade, acreditaria que o bem acabava por vencer o mal e terá pensado que os nazis não se preocupariam com uma mulher que já passara os sessenta.


Como todos os judeus, ela foi despojada dos seus bens e direitos, roubada e humilhada. Depois da morte da mãe, com 93 anos, foi obrigada a mudar-se para o ghetto nazi de Berlim. Em Janeiro de 1943, foi deportada para Auschwitz e guiada para a câmara de gás, logo à chegada, por ser dada como inapta para trabalhar. Tinha sessenta e cinco anos.

Livros da Nesthäkchen publicados depois da guerra
Apesar de gerações de meninas alemãs continuarem a ler os seus livros, a partir dos anos 1950, e se ter feito inclusive uma série televisiva neles baseada, em 1983, imperava o silêncio sobre o seu fim por ser má vista pelos intelectuais. Na Alemanha de Leste, os seus livros permaneceram proibidos até à queda do Muro de Berlim! E, no entanto, ao contrário de outros autores do género, Else Ury acompanhou a vida da sua heroína muito para lá da infância. Annemarie Braun, a Nesthäkchen, tornou-se adolescente, casou, formou família e até envelheceu. No último livro da série, publicado em 1925 e intitulado Nesthäkchen im weißen Haar, ela é uma avó de cabelos brancos.