Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

21 fevereiro 2017

Novos Contos da Montanha





Se olharmos para a vida com atenção, descobrimos que ela não é assim tão normal, ou inofensiva, como pensamos. Um escritor possui esse olhar especial e transmite para o papel aquilo que os outros nem se dão ao trabalho de observar.

Miguel Torga apresenta-nos a realidade nua e crua. É a tal literatura que não precisa de temas bombásticos, ou de grandes tragédias, para ser grande. Basta aquilo que acontece todos os dias, na casa dos vizinhos, ou na nossa própria casa.

Não tenho muito mais a dizer sobre estes fantásticos contos. Eles falam por si. Põem-nos a pensar na verdade escondida atrás das palavras e dos atos. Nas nossas mãos permanece a decisão sobre o que fazer dos frutos desta reflexão: ignorá-la, continuando a aceitar o mundo tal como ele é; ou usá-la, a fim de entendermos melhor os outros e a nós próprios, o primeiro passo para realmente tentarmos mudar o mundo.


17 fevereiro 2017

As Audrey Hepburns das nossas vidas

Como Presidente da República, Cavaco Silva não agradou a toda a gente. Talvez até nem tenha agradado à maioria, apesar de ter sido eleito por uma. Em democracia, porém, acontece que eleitores se desiludam com o desempenho dos por si eleitos.

Os que não apreciaram a atuação de Cavaco Silva podem e devem criticá-lo. Por atitudes que tomou, ou não tomou; por palavras que disse, ou não disse; pela sua alegada falta de cultura literária ou outra. Mas criticá-lo, ou mesmo ridicularizá-lo, por palavras elogiosas e ternurentas usadas em relação à mulher com quem está casado há mais de cinquenta anos? Numa altura em que a violência (não só) doméstica e a falta de respeito pelo seu semelhante está na ordem do dia? Há aqui algo que me escapa.

Maria Cavaco Silva teve vinte anos, como todos nós. E, com vinte anos, todas as mulheres são bonitas. E que, aos olhos de familiares e/ou amigos, Maria Cavaco Silva fosse parecida com Audrey Hepburn, é porque ela o era realmente! Porque estas coisas são mesmo assim! Pensem, meus senhores, nas vossas mulheres, quanto tinham vinte anos; em alguma namorada que tiveram, nas vossas mães, irmãs, filhas, netas! E pensem em vós próprias, minhas senhoras, pois certamente muitas de vós foram comparadas a estrelas de cinema ou outras figuras públicas conhecidas pela sua beleza! Quão cinzentas seriam as nossas vidas sem as nossas próprias Audrey Hepburns, Brigitte Bardots, ou Marilyn Monroes!

Ridicularizar Cavaco Silva por usar palavras elogiosas ao definir a mulher com quem está casado há mais de cinquenta anos não revela apenas mau-gosto e falta de educação, revela, acima de tudo, um grande, enorme, gigantesco preconceito!


15 fevereiro 2017

Leituras Obrigatórias



Tendo eu dado há dias a minha opinião sobre um livro que faz parte do Plano Nacional de Leitura, aproveito, agora que os ânimos se acalmaram, para pegar num assunto que gerou muita discussão, há pouco tempo. Refiro-me à obra O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, que, por um suposto erro informático (e aqui a confirmação de que se tratou de um erro) estava aconselhado a alunos do 7º ao 9º ano. Os professores da Escola Pedro Nunes decidiram incluí-lo nos seus programas, o que despoletou o protesto de muitos pais, que exigiam a retirada do livro como leitura obrigatória no 8º ano, pois utiliza, num certo passo, linguagem obscena (diga-se de passagem que não é a primeira vez que este autor está em foco por causa de linguagem obscena; houve igualmente um caso com o livro A Desumanização, chegando-se à conclusão de que o problema era a frase fora do contexto; pois eu, no único livro que li de Valter Hugo Mãe, também deparei com uma passagem que sinceramente me enojou).

Muita gente se indignou, ressuscitando o fantasma da censura. Ora, a censura não consiste em evitar que determinados livros sejam lidos por uma determinada faixa etária. Falar de censura, num caso destes, é desrespeitar a verdadeira censura e todas as pessoas que sofreram à custa dela. Não misturemos alhos com bugalhos, nem façamos uma tempestade num copo de água! Foi pena o autor ter mordido o isco e adotado o papel de vítima...

Um argumento usado pelos defensores do livro era que os pais, pelos vistos, ignoravam a linguagem obscena usada por muitas crianças e jovens entre os 12/14 anos, incluindo os próprios filhos (até se aludia que seriam todos os miúdos que o faziam, mas vou fechar os olhos a isso). Na minha opinião, este é um argumento inválido. As crianças que usam linguagem dessa, fazem-no como contestação própria da idade, pelo prazer de fugir às regras. Uma coisa completamente diferente é depararem com tal linguagem numa aula, onde supostamente se devem cultivar em todos os sentidos.

É verdade que a linguagem brejeira é usada nas obras de muitos autores laureados ao mais alto nível, como Saramago. Deve-se, porém, confiá-la a leitores que possuam maturidade suficiente para perceber que só se deve ser brejeiro, depois de se saber o que é ser bem-educado. Por isso, sempre achei que, neste caso, se devia aumentar a faixa etária. E foi realmente o que aconteceu: O Nosso Reino passou a ser aconselhado para o Secundário. Enfim, até me apetece dizer: ainda bem que os tais pais contestaram o livro, de outra maneira, o Ministério não corrigiria o alegado erro informático.


Uma nota a propósito da crítica a uma professora que terá recomendado a leitura de um livro que ela própria não leu. À primeira vista, é algo que realmente indigna. Mas não culpemos os professores de ânimo leve! Eles com certeza confiam plenamente no Plano Nacional de Leitura. Se, por exemplo, uma professora que seja admiradora de Valter Hugo Mãe, ao descobrir um livro dele recomendado para uma determinada faixa etária, resolva incluí-lo nas suas aulas, mesmo antes de o ter lido, cometerá uma falha assim tão grande? Também se pode dar o caso de a Direção de uma escola escolher incluir determinado livro e haver, entre os docentes, quem ainda não o tenha lido.


11 fevereiro 2017

Aventuras de João Sem Medo





Este “panfleto mágico em forma de romance”, ao estilo de Alice no País das Maravilhas, é um registo raro na literatura portuguesa e, por isso, digno de nota. João, um rapaz de cerca de doze anos, cansado das lamúrias da sua aldeia Chora-Que-Logo-Bebes, decide saltar o Muro construído em redor da Floresta Branca, «onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos».

João entra assim num mundo de fantasia, vivendo as aventuras mais estranhas. É de louvar a imaginação de José Gomes Ferreira na criação de mundos e personagens absurdas, com os quais João aprende muito sobre a vida, os dilemas humanos e a sociedade em geral, que, muitas vezes, se revelam precisamente absurdos.

Porém, fazendo este livro parte do Plano Nacional de Leitura, para o 3º ciclo, não posso deixar de fazer duas críticas desfavoráveis.

O objetivo principal desta narrativa é mostrar a jovens que se deve viver sem medo. Em grande parte do livro, isso é conseguido, João supera de maneira destemida os testes mais perigosos e absurdos. Chega, porém, a um capítulo em que encontra o seu contrário: João Medroso. Esta parte não me parece aconselhável, do ponto de vista pedagógico. João Sem Medo trata com bastante rudeza o rapaz medroso, com ordens de «cala-te» e apelidando-o de «medricas» e outros nomes menos simpáticos. É certo que João Medroso exagera, tem mesmo medo e desconfia de tudo, mas não me parece que a agressividade seja a melhor maneira de lidar com alguém medroso. Não se lhe consegue tirar o medo, apenas se lhe ensina a desprezar-se a si próprio. O próprio João Sem Medo diz: «jurei esconder o medo de mim mesmo, para não me desprezar». Esta é a terapia errada, pois, a melhor solução para ganhar coragem é aprender a valorizar-se a si mesmo, o que implica aceitar os seus medos. Isso sim, é corajoso!

Os dois Joões encontram um gigante. O Sem Medo tenta fazer-lhe frente, o Medroso encolhe-se, claro. E o que lhe acontece? O gigante divide-o em centenas de bichos-de-conta que amassa numa grande bola, envolve na pele de um sapo, que depois esborracha com um murro e acaba por desfazê-lo em ar. Foi esse o castigo por ele ser medroso! Sinceramente, acho que isto só aumenta o medo de quem já é medroso.

A outra grande crítica que tenho a fazer a este livro é que parece tratar apenas das aventuras e dos medos dos rapazes. As raparigas, quando surgem, ou são personagens graciosas, mas fracas, a necessitarem de ajuda, ou são (como haveria de ser de outra maneira?) seres traiçoeiros, que só servem para enganar os rapazes e metê-los em apuros. Em defesa do autor, diga-se que a primeira versão destas aventuras foram publicadas num jornal de 1933. Estão, porém, desadequadas ao nosso tempo, pelo que me parece que os jovens até aos 14 anos não o devam ler sem acompanhamento. Se servir de leitura obrigatória numa escola, espero que a/o professor/a possua pedagogia suficiente, a fim de dar a volta a estas situações.