Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

25 agosto 2016

Cantigas de Escárnio de Dom Dinis

Foto © Horst Neumann

Dom Dinis é conhecido pelas suas Cantigas de Amigo e de Amor, mas o Rei Poeta também criou Cantigas de Escárnio.
A esse propósito, um excerto do meu romance:

                                   Joam Bolo jouv’ em ũa pousada
                                   bem dês ogano que da era passou
                                   com medo do meirinho que lh’ achou
                                   ũa mua que tragia negada;
                                   pero diz el que, se lhi for mester,
                                   que provará ante qual juiz quer
                                   que a trouxe sempre dês que foi nada.

            Os nobres encetavam novos protestos contra os resultados das inquirições e Dinis, usando a personagem João Bolo, escarnecia dos fidalgos de província que desobedeciam aos meirinhos régios, usando de todos os subterfúgios para se furtarem às suas obrigações. Dizia o rei na sua cantiga que João Bolo vivia há um ano escondido, com medo de um meirinho que lhe descobrira uma mula roubada. O fidalgote contrapunha que, arranjando bom advogado, provaria perante qualquer juiz que a mula lhe pertencia, pois tinha testemunhas em como a criara desde que nascera, em casa de sua mãe. A melhor testemunha, dizia ele, era mestre Reinel, que tratara de um inchaço que a mula tivera no toutiço:

                                   Nom na perderá, se houver bom vogado,
                                   pois el pode per enquisas põer
                                   como lha virom criar e trager
                                   en cas sa madr’, u foi el criado;
                                   e provará per maestre Reinel
                                   que lha gardou bem dez meses daquel
                                   cerro, ou bem doze, que trag’ inchado.

            Dinis não tinha mais paciência para os infindáveis protestos, apesar de Isabel insistir em que não os subestimasse.

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O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook e na Kobo.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

Nota: Todas as Cantigas de Amor, de Amigo e de Escárnio transcritas no meu romance são originais de Dom Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas. 


23 agosto 2016

Sentença Arbitral de Torrellas (3)

Verificando-se, este mês, o 712º aniversário da Sentença Arbitral de Torrellas, na sequência de um longo processo, no qual Dom Dinis foi o medianeiro principal, aproveito para transcrever um excerto do meu romance alusivo a esta efeméride:

Portugueses e aragoneses confraternizaram num banquete. A rainha Branca de Aragão espantou a corte de Isabel com a última novidade vinda de Veneza: um espelho de vidro! As damas pasmavam com a clareza da imagem, acostumadas às folhas de prata polida, ou ao simples reflexo projetado na água. Algumas assustavam-se ao ver-se tão nítidas, descobrindo rugas e defeitos cutâneos e concluindo não apreciarem tais novidades.
A única que não se surpreendeu com a sua imagem foi Isabel, como se a conhecesse desde sempre. De resto, preferia prosear com dois famosos estudiosos aragoneses.
Arnaldo Vilanova, filósofo e alquimista, ligado ao movimento dos espirituais franciscanos, era médico oficial da corte desde o tempo de Pedro III e assumia missões diplomáticas ao serviço de Jaime II.
Raimundo Lulo, um franciscano catalão, igualmente ligado à alquimia, expressava pensamentos que a maior parte dos seus contemporâneos não entendia. Dizia ele, por exemplo, que seria possível alcançar a Índia circum-navegando a África, evitando o Mar Mediterrâneo, a rota comercial dominada pelos sarracenos. E ia mais longe! Numa das suas obras, escrevera: A terra é esférica e o mar também é esférico (…) é necessária uma terra oposta às praias inglesas: existe, pois, um continente que não conhecemos.
A existência de um continente desconhecido assustava e chocava, pois nada disso era mencionado nos mapas da época, que apresentavam Jerusalém como o centro da Terra e o mar como o fim do mundo. Outras almas mais iluminadas, porém, como as da rainha portuguesa e do Mestre dos Templários Frei Vasco Fernandes, fascinavam-se. Os cavaleiros do Templo estavam familiarizados com ideias avançadas e mal compreendidas, eram conhecedores de enigmas, sendo inclusive encarados com desconfiança por personalidades como Filipe IV de França.
No banquete de confraternização entre portugueses e aragoneses, Raimundo Lulo mencionou a intrigante viagem de um italiano à China, Marco Pólo de sua graça, que, volvido à sua terra, ditara as suas aventuras a um companheiro de prisão, Rusticiano de Pisa.


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O meu romance sobre Dom Dinis pode ser adquirido na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon. A Amazon.com permite o pagamento em dólares.

No Brasil, está disponível na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura.

A versão em papel não se encontra à venda nas livrarias, pelo que os interessados devem contactar-me pelo email andancas@t-online.de, ou através de mensagem privada no Facebook.



20 agosto 2016

Foral de Porches


A 20 de Agosto de 1286, el-rei Dom Dinis concedeu foral a Porches, pelo que hoje se celebra o seu 730º aniversário.

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18 agosto 2016

Amores de Dom Dinis (2)



Fonte da imagem

Mais uma passagem do meu romance sobre Dom Dinis, referente à sua paixão por uma donzela protegida de Dona Isabel e em que o Rei Lavrador revela a sua veia poética:

Dinis nunca se vira em tal situação, sempre seguira os seus impulsos, não hesitando em seduzir uma dama que o encantasse. A verdade é que se interessava, pela primeira vez, por uma protegida da rainha. Sempre achara tais moças novas e tímidas demais, um juízo que se acentuara com o passar do tempo. Aquela jovem, porém, ultrapassava todas as suas expectativas, no que respeitava a beleza e graça. Para mal dos seus pecados, também cativava Isabel, era visível a ternura que a rainha nutria por ela, expressada num grande empenho em lhe proporcionar um futuro digno. Branca Lourenço de Valadares não era apenas mais uma protegida de Isabel, era a sua protegida especial!
Assim que recolheu aos seus aposentos, e apesar de extenuado, Dinis sentou-se à sua escrivaninha, expressando o desespero em que viveria, enquanto não declarasse o seu amor:

(Tivesse eu tempo e Deus me desse o poder de vos contar o mal que me faz sofrer essa vossa beleza, da qual Deus não fez par; pudesse eu falar-vos e perderia muito do sofrimento que hoje me mata; Deus fez-me amar-vos tanto, que não consigo imaginar como possa continuar a viver, se não acabardes com este meu sofrimento sem igual):

                        Senhor, hoj’ houvesse eu vagar
                        e Deus me desse end’ o poder,
                        que vos eu podesse contar
                        o gram mal que mi faz sofrer
                        esse vosso bom parecer,
                        senhor, a que El nom fez par.

                        Ca se vos pudess’ i falar,
                        cuidaria muit’ a perder
                        da gram coita e do pesar
                        com que m’ hoj’ eu vejo morrer,
                        ca me nom pod’ escaecer
                        esta coita que nom há par.

                        Ca me vós fez Deus tant’ amar,
                        er fez-vos tam muito valer,
                        que nom poss’ hoj’ em mi osmar,
                        senhor, como possa viver,
                        pois que me nom queredes tolher
                        esta coita que nom há par.


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O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook e na Kobo.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

Nota: Todas as Cantigas de Amor, de Amigo e de Escárnio transcritas no meu romance são originais de Dom Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas. 



16 agosto 2016

Sentença Arbitral de Torrellas (2)

Verificando-se, este mês, o 712º aniversário da Sentença Arbitral de Torrellas, na sequência de um longo processo, no qual Dom Dinis foi o principal medianeiro, aproveito para transcrever um excerto do meu romance, alusivo a esta efeméride:

As sentenças foram proferidas em Torrellas, a 8 de Agosto. Como combinado, o rei de Portugal, o infante Don Juan e o bispo de Zaragoza Don Ximeno de Luna proferiram a sentença quanto à divisão do reino de Múrcia, estabelecendo o rio Segura como linha divisória, solução que estava longe de agradar a muitos nobres castelhanos, apesar de o mais prejudicado ser um português: o irmão de Dinis! Os senhorios de Elda e Novelda, pertencentes à sua consorte, situavam-se na parte destinada ao monarca aragonês, que os exigia para si próprio, pelo que Afonso e Violante lhos teriam de entregar.
Dinis tentou acalmar o irmão:
- Nada pude fazer para o evitar. Mas o meu genro comprometeu-se a doar-te senhorios de rendimento idêntico em Castela. E sabes que em Portugal, onde igualmente possuis propriedades valiosas, serás sempre bem-vindo!
O irmão limitou-se a encará-lo com o seu olhar amargurado.
Os reis de Portugal e de Aragão e o infante Don Juan de Castela proferiram ainda a sentença quanto às pretensões de Alfonso de la Cerda, que teria de desistir de certos castelos, deixar de usar o tratamento de rei e selo e armas correspondentes. Em compensação, o monarca castelhano comprometia-se a entregar-lhe senhorios que atingissem a renda anual de quatrocentos mil maravedis.
No dia seguinte, Fernando IV e Jaime II aprovaram e aceitaram os termos da sentença, seguindo-se um juramento em que participaram os membros das famílias reais, os representantes das Ordens militares e dos concelhos e os ricos-homens castelhanos e aragoneses. Os monarcas de Portugal, Castela e Aragão declararam-se ainda «amigos dos amigos e inimigos dos inimigos», jurando ainda Dinis e Jaime II amizade para com o rei mouro de Granada, que se fizera vassalo de Fernando IV.


O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon.

No Brasil, está disponível na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura e a Amazon.com permite o pagamento em dólares.


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