Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

21 agosto 2017

Queremos mais crianças, ou não?



Crónica de minha autoria, publicada no jornal Portugal Post nº 278 - Agosto 2017:

 
Todos conhecemos o problema do envelhecimento da população e estávamos convencidos de que seria irreversível. Maior foi o meu espanto ao constatar que a Alemanha enfrentará, em breve, uma falta de professores. Prevê-se um verdadeiro boom de alunos, nos próximos quinze anos: em 2025, haverá mais 4%, passando a 8% em 2030. Boa ou má notícia?

Em Portugal, toda a gente se queixa da falta de crianças e do fechamento de escolas, em dimensões que se podem considerar dramáticas em certas regiões do interior. Criam-se agrupamentos escolares cada vez maiores e descaracterizados e protestam os pais, cujos filhos têm de mudar para uma instituição de ensino longe de casa. Além disso, clama-se que haverá cada vez mais reformados, enquanto diminui o número de pessoas no ativo, o drama de uma Europa envelhecida, onde mal nascem crianças e as despesas com os cuidados aos mais velhos explodem.

Na Alemanha, os nascimentos têm vindo a aumentar. O boom de alunos não se deve, contudo, apenas ao desejo dos alemães de constituir família, mas também ao grande número de crianças e jovens entre o quase milhão e meio de refugiados e migrantes que, desde 2015, entraram neste país e que, pelos vistos, ajudarão a rejuvenescer a população e a equilibrar o sistema de reformas. Quem sabe, certa Europa ainda se venha a arrepender por se ter deixado vencer pelo medo, cercando-se de arame farpado.

Os responsáveis pelo sistema de ensino não parecem, porém, tão otimistas, alegando que será difícil enfrentar o problema da falta de professores, aliado à necessidade de construir mais escolas e às obras de renovação de outras já existentes. As escolas do ensino primário - da 1ª à 4ª classe - vão ser as primeiras afetadas. Um estudo da Bertelmanns Stiftung diz que, em 2025, poderão ser necessários mais 24.000 professores e quase 2.400 novas escolas. O problema arrastar-se-á para os níveis de ensino seguintes, onde, até 2030, terão de ser criados mais 27.000 lugares.

Tudo isto vai exigir um investimento enorme, para o qual o governo alemão e as autarquias não se sentem preparados. Especialistas dizem inclusive que, além de professores e escolas, serão necessários mais assistentes sociais e psicólogos. Não se pode entender a escola como no passado, estamos a viver uma época de grandes mudanças e novos desafios. Além da integração de crianças e jovens com deficiência nas escolas “convencionais”, projeto que tem sido levado à prática nos últimos anos, há que trabalhar para uma boa integração dos alunos oriundos de diversos países e culturas.

No meio disto tudo, pergunto-me o que se passará na cabeça de certos políticos, quando aconselham as pessoas a terem mais filhos, sem explicar como as famílias os poderão sustentar e educar de maneira satisfatória, para já não falar no investimento que teria de ser feito no ensino, a fim de inverter a situação, num tempo em que se fecham escolas.

De qualquer maneira, considero este boom de alunos uma boa notícia e espero que se reaja a tempo de colmatar a falta de professores e de escolas. Seria interessante verificar que a Alemanha (sempre a Alemanha) estaria, daqui a uns anos, a colher os frutos de uma população mais jovem, enquanto outros países, que resolveram fechar as suas fronteiras, se continuariam a queixar do envelhecimento da sua população.




18 agosto 2017

Ensino de Português no Estrangeiro




Toda a gente acha muito bem que os filhos de portugueses no estrangeiro frequentem aulas de língua materna. Mas alguém se questiona como funciona esse ensino, qual a sua eficiência e em que condições os professores trabalham?

Dei aulas a crianças portuguesas em Hamburgo apenas durante dois anos letivos e, apesar de ter sido uma experiência interessante, fiquei revoltada com uma série de coisas. Como, porém, já se passaram quase vinte anos (foi entre 1998 e 2000), pensei que a situação tivesse melhorado, até porque participei em reuniões em que muito se discutia o assunto e me deixavam com a impressão de que se estava perto da viragem. Li, agora, uma entrevista que a Secretária-Geral do Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas, Teresa Soares, deu ao jornal Portugal Post e constatei que a situação, afinal, está pior do que nunca!

Os professores do Ensino de Português no Estrangeiro (EPE) não têm os mesmos direitos dos seus colegas a exercer em Portugal no que, por exemplo, diz respeito à progressão na carreira. Teresa Soares diz que o ME sacode a água do capote, alegando que, com a passagem do EPE para o MNE/Instituto Camões em 2010, deixou de ter responsabilidades para com os docentes no estrangeiro.

Teresa Soares não poupa, aliás, em críticas ao Instituto Camões, que, segundo ela, recusa o cumprimento das leis de proteção à família e à maternidade, não podendo as professoras no estrangeiro recuperar férias suspensas por licença de maternidade nem usufruir das reduções de horários previstas para cuidar de filhos pequenos. No caso de doença grave, os professores do EPE, além de poderem ser despedidos se faltarem mais de sessenta dias, não têm direito à Lei da Mobilidade Especial, que permite ter um local de trabalho mais próximo da sua residência.

A diminuição constante do número de alunos obriga a turmas cada vez mais mistas, com quatro e cinco níveis de escolaridade acumulados. Além disso, há professores que se deslocam a uma localidade diferente em cada dia da semana e têm a seu cargo alunos do 1º ao 12º ano de escolaridade e com conhecimentos de Português de níveis diferentes.

Esta questão dos níveis é muito difícil de gerir. Eu, por acaso, dava aulas sempre no mesmo local e só tinha alunos do 1º e 2º anos. Mas o nível de conhecimentos de Português variava realmente muito. No 1º ano, eu tentava ensinar a ler em Português a, pelo menos, três tipos de alunos: os que tinham bons conhecimentos da nossa língua, porque os pais falavam Português em casa; os que tinham conhecimentos sofríveis, porque os pais, apesar de serem portugueses, tinham ido para a Alemanha em crianças, ou até nascido nesse país, e falavam maioritariamente Alemão em casa; os que não entendiam patavina de Português, porque eram filhos de casais mistos, ou seja, um dos pais era português, enquanto o outro era alemão ou até nacional de outro país, como a Polónia ou a Sérvia, casais que se entendiam em Alemão, pelo nunca se falava Português em casa deles.

Teresa Soares alega que os professores com maiores deslocações e que lecionam todos os níveis deviam ter horários reduzidos, pois a preparação das aulas consome mais tempo e o desgaste, tanto físico como psíquico, é maior. Nas palavras da Secretária-Geral do Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas, a tutela, porém, «nem quer ouvir falar de tais coisas» e não parece interessada na qualidade do ensino. Cada grupo de alunos tem, semanalmente, sessenta ou noventa minutos de aula de Português, o que Teresa Soares considera insuficiente.

Há também o problema da propina, instituída em 2012 pelo governo de Passos Coelho, nessa altura, duramente criticada pelo PS, que se recusa agora a aboli-la, apesar dos protestos dos partidos que sustentam o governo de minoria. A propina levou à perda de mais de dez mil alunos a nível mundial.

Uma outra questão, a dos manuais, era talvez o meu maior problema, na altura em que dei aulas. Usavam-se os mesmos manuais que em Portugal e não é difícil de calcular que eram perfeitamente desadequados, não só por as crianças estarem inseridas em sociedades diferentes, como não ajudavam a gerir os diferentes níveis de conhecimentos da língua na mesma turma. Hoje em dia, há manuais feitos para o EPE, mas que Teresa Soares considera igualmente inadequados, já que se baseiam no princípio do ensino de Português como língua estrangeira, por decisão do Instituto Camões.

Como se vê, é um assunto longe de estar resolvido, o que surpreende, se pensarmos que o ensino de Português no estrangeiro foi instituído há várias décadas. Pelos vistos, a tutela não tem aprendido nada com a experiência. 


15 agosto 2017

Quem lia a Bíblia no século XI?



«No século XVIII, Maria Antonieta supostamente aconselhou as massas famintas a que, se ficassem sem pão, comessem bolos. Hoje, os pobres seguem este conselho à letra. Enquanto os habitantes ricos de Beverly Hills comem salada de alface e tofu cozido a vapor com quinoa, nos bairros da lata e guetos os pobres engolem bolos industriais, pacotes de aperitivos salgados, hambúrgueres e pizzas (…) Já não existe fome natural no mundo, há apenas fome de origem política (…) na maioria dos países, hoje, comer demais tornou-se um problema muito pior do que a fome (…) Em 2010, a fome e a desnutrição combinadas mataram cerca de um milhão de pessoas, enquanto a obesidade matou três milhões».

São palavras do historiador israelita Yuval Noah Harari, autor do livro Homo Deus - História Breve do Amanhã (Elsinore 2017) numa entrevista ao DN. Na sinopse da Editora Elsinore, Homo Deus é um «ensaio que explora os projetos, sonhos e pesadelos que vão dar forma ao século XXI, da erradicação da fome ao fim da guerra, passando pela vida artificial».


A julgar pela entrevista, o livro vale a pena. Além de analisar o presente, e baseado na História da espécie humana, Yuval Noah Harari faz um retrato bem fundamentado de um futuro próximo, em que seremos condicionados pelo algoritmo e em que «existe o perigo de a humanidade se dividir em castas biológicas».

Na entrevista, Yuval Noah Harari foca o problema de, pela primeira vez na História, não sabermos o que ensinar aos jovens, já que tudo acontece muito depressa. Daqui a vinte ou trinta anos, os nossos filhos não poderão usar aquilo que lhes ensinamos hoje. «O nosso conhecimento está a aumentar a uma velocidade vertiginosa e, teoricamente, deveríamos entender o mundo cada vez melhor. Mas está a acontecer precisamente o contrário». De facto, antigamente, tudo era mais previsível: «Em 1017, os pais ensinaram aos seus filhos como plantar trigo, como tecer lã, ou como ler a Bíblia e era óbvio que essas capacidades ainda seriam necessárias em 1050. Pelo contrário, a maior parte do que as crianças aprendem hoje na escola será irrelevante em 2050».

Este pensamento é realmente interessante. Mas, e apesar de não contrariar a sua lógica, há uma informação falsa nestas afirmações, um erro, que um historiador não devia dar: «Em 1017, os pais ensinaram aos seus filhos (…) como ler a Bíblia».

Recuemos a 1017!

Há mil anos, não era possível ir a uma livraria comprar a Bíblia traduzida na nossa língua. Não havia livrarias. Só existiam livros nos mosteiros, escritos e/ou copiados à mão pelos monges, pois faltavam mais de quatro séculos para a imprensa ser inventada.

Em 1017, 99% das pessoas não sabia ler, nem sequer o que era um livro. As Bíblias que se guardavam nos mosteiros estavam escritas em hebraico, grego ou latim e, além dos clérigos instruídos (porque os havia ignorantes), ninguém sabia ler nelas, nem sequer os membros das casas reais. Na Idade Média, havia uma ordem considerada divina: a nobreza, que se dedicava à guerra; o clero, que se dedicava à religião e à cultura (as duas coisas andavam ligadas); o povo, que se dedicava ao trabalho agrícola. Ou seja: mesmo a nobreza deixava a leitura da Bíblia a cargo do clero e orientava-se pelas pregações deste. Os camponeses, que ensinavam os seus filhos a plantar trigo, viviam aterrorizados com o pecado e o inferno e conheceriam apenas algumas histórias da Bíblia, as que lhes eram contadas pelos padres.

Tanto quanto sei, a leitura da Bíblia em família só surgiu na época moderna, ou seja, a partir do século XVIII, e mais entre os Protestantes, resultado da Reforma Luterana que, aliás, coincidiu, no tempo, com a invenção da imprensa. As ideias de Lutero nunca teriam atingido tanta popularidade, se não fossem difundidas pela invenção de Gutenberg. A Bíblia de Lutero, traduzida em alemão (e a que se seguiriam outras traduções), deu início a uma verdadeira revolução, pois, pela primeira vez, qualquer pessoa (que soubesse ler e, no século XVI, já eram mais do que no XI) podia ter acesso às Escrituras Sagradas e interpretá-las à sua maneira.

Dizer que os pais ensinavam os filhos a ler na Bíblia, no século XI, é, por isso, uma expressão muito infeliz deste notável historiador.